A árvore mais antiga do mundo – por José Isaac Pilati

6 de setembro de 2021 10:14

Fiquei profundamente tocado com a homenagem prestada aos profissionais de saúde e às vítimas da Covid-19, na cidade de Maravilha-SC. Plantaram o: Bosque da Memória,nos altos do Seminário. Próximo do céu, Rua do Contestado, guerra ao olvido. Na Cidade, que pretendemos eterna, setenta árvores de jacarandá devotadas a reflorescimento em oração e perfume. Jacarandá é termo de origem tupi-guarani (bignoniaceae para a ciência); árvore nativa, que e a exemplo do cedro-rosa e da araucária, possui a madeira compacta, e vive em torno de 500 anos, a idade do Brasil.

              Vem da antiguidade essa devoção que temos pelas árvores longevas; havia rituais populares na presença delas. Num sentimento de respeito, por saber que elas sobreviverão a nós todos, e por guardarem elas no lenho a nossa amizade, a dor e as alegrias da poucas primaveras, que nos são dadas sobre a terra. Conforta saber, também, que os antepassados ali estiveram, compartilharam com ela o sonho da longevidade, seus segredos e angústias. A árvore mais velha do mundo está nos Estados Unidos, um Pinus longaeva, mais velho que as próprias pirâmides do Egito.

              São como raros monges do tempo, a exemplo de um cipreste no Chile, uma figueira no Sri Lanka e uns Gingkos chineses; distinguem-se pela madeira resistente a insetos, fungos, pestes, e são protegidos por uma capa de resina. Mas o segredo maior é que elas não estão programadas para morrer, como as demais espécies nativas, os animais e nós humanos. Na floresta densa e na natureza em geral, é o contrário, impera a solidariedade, a exemplo das estrelas, de cujos restos mortais surgem planetas e novas estrelas: das velhas árvores dependem miríades de espécies e plantas, que diversificam e renovam a própria vida.

                  A vida humana só se completa com a morte, e a questão difícil dos tempos modernos, em verdade, é que a enfrentamos, basicamente, no plano do indivíduo; quando um dos segredos da grandeza romana, por exemplo, está na forma como lidavam com ela: plantada na religião, mas à semelhança de árvore, ligada à própria fundação; a ressignificar a cada geração, no plano do populus, com exéquias e símbolos – a urbe. O gesto da autoridade com o Bosque da Memória, em Maravilha, vai nessa direção: plantar a dor para que ela floresça perene, viva a cada nova primavera, aos olhos da cidade, num recanto de paz, próximo do céu.

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